sábado, 20 de junho de 2015

Pêssego em calda

História número um.

"Pêssego com creme de leite".
A voz enfraquecida saiu numa inesperada pausa do sofrimento.
A ainda não-mulher, a apenas menina, acatou o desejo da mãe.
Abriu a geladeira e diante da luz amarela vinda lá do fundo, que ficaria para sempre em sua retina, sentiu alegria e também frio.
Parecia muito para a dúzia de anos da menina compreender tamanha dor. Pareceria igualmente muito se tivesse cinquenta ou setenta.
Serviu em dois copos o doce com calda e o branco creme.
Apreciou ver a mãe saciando um desejo. Mesmo em sua magreza, estava bela.
O último alimento da mãe; a última comida em que partilharam juntas sabores, olhares, um longo abraço até que a pausa do sofrimento trouxe em definitivo a ausência.

História número dois.

No mercado com sua mãe, a garotinha de dez anos faz um pedido:
"Mãe, eu sei que você está com dinheiro, mas quero te pedir para não comprar pêssego em calda. É que é tão bom, tão gostoso e eu comi essa semana, então quero que demore até eu comer de novo. Quero que seja especial!

A garotinha da história número dois não sabe da primeira história.
Não sabe que sua avó deleitou-se com o mesmo sabor que ela tanto aprecia.

Lá em cima, na primeira história, estou eu e minha mãe.
No mercado, eu e minha filha.
Ainda não contei essa história para ela porque não é apenas dizer "minha mãe, sua avó, pediu-me pêssego em calda antes de partir".

É uma história especial, que precisará de um momento especial e certamente será ao sabor de pêssego em calda com creme de leite!

E então, já preparou uma história, uma receita, um prato, uma foto para trazer aqui na toalha xadrez da Blogagem Coletiva? Então prepara e traz!
Mais pro final da tarde, volta aqui que eu  editarei essa postagem para acrescentar os links que estão participando. E espia lá na Tina também!

Saudade é o tema da próxima BC - 04 de julho.


Doce, salgado, sabores, amores... confira:

Rosélia

Luma

Chica

Bia Hain

Tina

Felipa

Estela

Majoli


18 comentários:

✿ chica disse...

Lembrei agora, de uma vez que falaste sobre esse pêssego em calda e tua mãe.

Que linda e emocionante história dela, terminar seus dias por aqui assim...Que bom que saciou essa vontade.

E na segunda história, as coisas realmente precisam de um momento especial e parece que Juju sabe das coisas, mesmo antes de saber dessa história da avó!

Chegará o dia em que, juntas, deliciando-se com um potinho de pêssego e creme de leite, o assunto poderá vir à tona!

Lindo te ler! beijos,tudo de bom,chica

Deixo aqui minha participação:

http://lugarescoloridos.blogspot.com.br/2015/06/uma-comida-veeeeeeeeerders.html

Roselia Bezerra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roselia Bezerra disse...

Olá, querida Ana
Agora, passando pra deixar o link e depois pra comentar a sua deliciosa história...

http://www.escritosdalma.com.br/2015/06/docuras-da-vida.html

Bjm fraternal

Bia Hain disse...

Oi, Ana, sua história me emocionou. Eu gosto muito de pêssegos em calda com creme de leite, e achei curiosa a viagem sentimental que fez ligando a história de sua mãe à observação da sua filha. Correlações inesperadas e tocantes.
Lembrei também da minha tia, pessoa boníssima, doente, que me pediu para preparar para ela macarrão, carne assada e maionese. Sem dúvida uma das refeições mais significativas que fiz até hoje.
Sua história me emocionou.
Abraços

http://revoltaeromance.blogspot.com.br/2015/06/blogagem-coletiva-comida.html

Hilsa Camargo disse...

Ana, fiquei aqui pensando... realmente tem comidas que representam mais que isto, são pedaços de momentos em nossas vidas, frações de emoções que dividimos. Lindo post :)

Beijocas

www.vidabonita.com.br

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida Ana
Todos me disseram que a saudade que tinha do meu pai amado se transformaria numa 'saudade gostosa'... até hoje espero por isso e nada...
Senti o que vc sente ao ver 'pêssego com creme de leite', daqui...
Sem mais palavras...
Bjm fraternal

Tina Bau Couto disse...

Na casa de meus pais e avós, pêssego em calda com creme de leite é sobremesa da noite de Natal
E lá está o ano inteiro no mercado a tal lata e lá fica, em casa só na época, pela poesia da coisa, pela tal tradição

Na casa deles menos por decidir só comer no Natal, mais por questões financeiras e pela mesma razão na data era uma lata para todos, uma banda pra cada, caldo repartido e uma colher de creme de leite, pois era na lata o tal, que vinha com receita no verso, coladas em um caderno por minha mãe
Doces memórias e sintonias

Diz a Júlia que meu pai fala que quando comemos algo e achamos gostoso se repetir o próximo não vai ser igual

Felipa Monteverde disse...

Adoro pêssego em calda mas com creme de leite nunca comi. Nem sei bem o que seja creme de leite, se será algo tipo o leite-creme português. Se for é ótimo.
A sua história é comovente. A minha avó faleceu há um ano e os seus últimos momentos ainda estão muito presentes em mim.

Minha participação aqui:
http://felipa-imagens.blogspot.pt/2015/06/um-cafe-e-uma-nata.html

Beijinho

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Sabia que na China Imperial, os pessegueiros eram plantados defronte as casas pq acreditavam que a árvore espantava os maus espíritos? Mas foi um francês residente em Pelotas que fez pela primeira vez a receita da compota no Brasil, antes de instalar a fábrica que havia importado para cá em 1900. Lembro de comer pêssegos em calda nas receitas de pavê ou enfeitando pratos salgados quando era criança.
Deve ser emocionante ouvir da sua filha o quanto gosta de pêssegos em calda, sendo uma iguaria que a sua mãe gostava tanto... O paladar é um sentido complexo e nem todo mundo gosta da mesma iguaria. É misterioso até para a ciência subjetiva quando as preferências ancestrais se manifestam.
Você pode dizer para a sua filha que a avó também gostava de pêssegos em calda, já a história que contou, pode deixar para mais tarde... rs.
Beijus,

ONG ALERTA disse...

Recordar ..... Beijo Lisette.

Poesia do Bem disse...

Que linda e saudosa história e há que se contar num momento especial a tuda filha. Amei o tema, sou nostálgica e devo ter muitas recordações vou preparar o meu depois trago pra cá o link, bjs

Estela Vidal Ribeiro disse...

É com os olhos marejados que venho trar minha participação atrasada. Que história a sua! Me emocionei...
Beijo!

Majoli disse...

Ana Paula cheguei bem atrasada, pois até o domingo já está acabando, dirá o sábado, né não?
:(
Mas vim deixar minha participação:
http://majoli-rabiscosdaalma.blogspot.com.br/2015/06/blogagem-coletiva.html

Sua postagem é de muita emoção, o dia que contares pra sua filha...penso que vai ser muito marcante.
Gostoso te ler.
Um beijo especial de uma semana de paz.

Pérola disse...

Há palavras cheiros, sons, sabores que nos transportam para o pé e outras pessoas, para outros lugares.

Beijinhos

Clara Lucia disse...

Ana, uma história com tão poucas palavras e que fizeram ficar pensando por uns instantes, até ler a segunda história. Como o alimento marca a vida da gente, não é? Eu sinto até o cheiro da maçã da feira, vermelhinha, mas que minha mãe nunca comprou pra mim. Nunca saberei aquele sabor....

Beijos, ótima semana.

Graziela disse...

Ai ai chorei.
Que sintonia. Júlia linda e sensível; tenho certeza que quando ela estiver maior e se der conta dos seus textos ficará feliz.
Abraços
Grá

Pandora disse...

Estou muito chorona hoje... Que história linda!!!

Filha de José disse...

Ana...
Meus dias tem sido uma correria só.
Leio rapidamente o blog e vou pensando nele.
Pensei que o tema para amanhã, dia 04 era o de culinária. E já estava eu preparando o post. rsrs
Vim aqui conferi e vi que o de culinária já foi...

Vou lá falar sobre saudade então. Pra postar amanhã.

Bj